segunda-feira, 21 de maio de 2012

Jurista português envolvido na crise política e militar de 2006 analisa a situação do país e aponta o que ainda falta fazer

Por: Catarina Pereira  |  20- 5- 2012  0: 0
 
 
Timor-Leste é um país independente há dez anos. A paz e a liberdade parecem definitivamente conquistadas. A economia é desequilibrada, a indústria é frágil e a dependência do Estado é quase total. Os timorenses já não receiam um atentado, uma guerra civil ou uma ocupação a todo o momento, até porque a maioria tem de preocupar-se em colocar comida em cima da mesa.

Este é o retrato traçado por Domingos Tristão, jurista português que se mudou logo a seguir à independência para o país recém-criado. «A maior conquista dos timorenses nestes 10 anos foi a liberdade, poderem falar. Existe aqui uma liberdade como não há em Portugal», disse, ao tvi24.pt.

Apesar do desenvolvimento económico, há ainda «muita gente que não tem o mínimo de sobrevivência económica». «A maioria ainda luta para ter dinheiro para comer. Há mais dinheiro no país, mas falta um desenvolvimento económico mais equilibrado e distribuído», lamentou.

Domingos Tristão, desde 2005 conselheiro do governo timorense, recorda «o momento mais difícil» destes 10 anos: em 2006, um grupo de mais de 500 militares submeteu uma petição ao chefe das Forças Armadas, Taur Matan Ruak [que este domingo toma posse como presidente], e ao presidente da altura, Xanana Gusmão. «Queixavam-se que não eram promovidos nos quartéis» e que havia discriminação nas Forças Armadas, pelo que «abandonaram os quartéis».

«Xanana prometeu-lhes que a situação ia ser analisada, mas que tinham de regressar aos quartéis», conta. Foi criada, então, uma comissão para analisar as queixas e a atitude dos militares, que não obedeceram à ordem. «O general Taur Matan Ruak pediu-me um parecer, numa altura em que não havia legislação e a organização administrativa era muito ténue. Uma vez que não tinham obedecido ao presidente, considerei que tinham abandonado o posto de serviço e aquilo descambou», afirma.

Os militares foram exonerados, manifestaram-se e provocaram uma crise política e militar que só terminou após a morte do major Alfredo Reinado, durante um atentado contra o então presidente José Ramos-Horta, a 11 de fevereiro de 2008, no mesmo dia em que dispararam contra a casa do primeiro-ministro Xanana Gusmão.

Vários deputados defenderam que Domingos Tristão «devia ser expulso» do país. «Não foi uma situação confortável. O palácio do governo destruído, fugiram todos. Houve dias em que ia para lá sozinho trabalhar, mas nunca tive problema nenhum, nunca me senti ameaçado», frisa.

Após a crise de 2006 e os atentados de 2008, o jurista garante que se instalou um clima de paz «que muita gente não acreditava ser possível» em apenas 10 anos. «As pessoas não têm receio que essas situações voltem a acontecer», assegura, dando como exemplo as eleições presidenciais de março e abril deste ano, que foram já «muito pacíficas». Taur Matan Ruak venceu à segunda volta, com mais de 60 por cento dos votos, e será investido no cargo este domingo.

Questionado sobre o papel da comunidade portuguesa nos últimos dez anos, Domingos Tristão garante que «os portugueses têm dado um apoio muito grande». «Os timorenses confiam especialmente nos portugueses, sabem que não estão aqui por interesse, mas para ajudar», diz, salientando que a «maior colaboração» se vê na educação e na justiça e que «a grande luta» tem sido no ensino da língua portuguesa, uma vez que «a geração até aos 40 anos não sabe falar português».

O conselheiro do governo timorense alerta que «falta ainda alguma formação» na área da segurança, pelo que, mesmo com o final da Missão Integrada das Nações Unidas (UNMIT) no país, em dezembro deste ano, espera que a GNR continue no terreno.

Para o futuro, Domingos Tristão espera que Timor-Leste procure «boas relações» com a Indonésia e a Austrália. «E devem expandir essas relações para outros países, como por exemplo os da CPLP. Este pode ser um bom caminho nas relações comerciais».

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